Entrevista com Rincon Sapiência

Imagem: Studio N    Arte: M&S


M&S: Primeiramente parabéns pelo lançamento de SP Gueto BR. Como foi a escolha para as músicas para esse trabalho e o processo de gravação?
Rincon: A escolha foi bem difícil, tenho um repertório com muitas músicas, muitas mesmo, são anos compondo e produzindo, todas as músicas tem minhas características mas nem todas se conversam, então foi complicado. Esse é meu primeiro trabalho com bastante faixas, meu primeiro lançamento foi o Promotrampo vol.01 com 4 faixas, duas versões de cada música, então sempre carreguei essa dívida de lançar algo mais formatado, então tive que ir por etapas, quem me acompanhe em shows já conhece algumas músicas que estão no EP, mas elas estavam todas desfragmentadas, algumas soltas na internet, outra em um vídeo do Manos e Minas por exemplo e por aí vai, fiz algumas dessas músicas que estavam soltas fazerem parte de uma obra. Quanto a gravação, foi toda feita em casa, tive um problema de saúde grave em 2013, quase bati as botas, tinha a orientação de ficar em casa de boa, pra mim que gosto da noite e da rua foi péssimo, então comprei um microfone massa e passei a gravar tudo que tinha, de repente tinha uma pasta com umas 40 músicas gravadas e não mixadas e assim começou toda história do EP.

M&S: Conte-nos sobre a ideia para o clipe de Profissão Perigo...
Rincon: Sempre achei piegas esses Raps que falam de Rap, como ser um rapper e tudo mais, mas a situação me levou a compor algo do tipo, acho massa essa demanda jovem que vem consumindo Rap, mas muitos deles poucos sabem da história, da cultura e saem cornetando tudo, não tem pudor nenhum em se pronunciar em relação aos pilares da cultura, lógico que ninguém é inquestionável, todos somos, mas devemos encarar que por trás dos artistas existe uma longa história de luta. Tive a felicidade em emplacar duas músicas de grande apelo nas baladas, a primeira foi "Elegância" e a segunda "Sair pra Gastar" em parceria com Sorry Drummer e Filiph Neo, então pensando na construção da minha imagem como artista resolvi impor outras informações em meus vídeos, então filmamos "Transporte Público" que até hoje é pauta de debates em relação ao tema, trechos da minha letra são usados nos manifestos do MPL fato que me deixa muito honrado e dando continuidade a esse foco lançamos "Profissão Perigo". Colocamos a favela de volta aos clips de Rap, homenageamos os artistas ainda vivos que fazem e fizeram história e contamos um pouco da história da comunidade, acho lindo ver uma comunidade tão bem estruturada com um bairro, ter sido iniciado pela líder comunitária Dona Neuza, uma mulher. Ainda não temos datas já que temos muitas coisas a resolver, mas não descarto a ideia de esticar essa história pra um documentário.

M&S: O que você pensa sobre a Copa do Mundo e os protestos que vem ocorrendo?
Rincon: Quanto a Copa do Mundo amo futebol e estou ansioso pra ver o comportamentos das seleções aqui em solo brasileiro, será algo novo e memorável pra história do futebol, agora politicamente falando vem a tona a real situação do Brasil, se baseando em alguns números a impressão que dá é que o Brasil agora pertence a outra casta de países, mas esse "desenvolvimento" não é tão real como dizem. Vamos receber um evento mundial e na escola da quinta ao último ano do ensino médio só nos ensinam o verbo to be, o transporte é caro, saúde pública péssima e por aí vai, política como o próprio nome sugere é politicagem, qualquer país no mundo desenvolvido ou não desenvolvido gostaria de sediar uma Copa Mundo, só esquecerem de preparar o país pra isso, então não existe hora mais propícia pras manifestações do que essa.

M&S: Você acredita que o racismo no Brasil, por ser velado, é tão perverso quanto o racismo mais evidente apresentado em outros países?
Rincon: Com certeza, porque o racismo mais explícito por ser explícito nos exige a defesa, o contra ataque, agora no racismo velado a situação chega a ser trágica e parece que nada está acontecendo, isso é muito mais nocivo. Do governo Lula pra cá o Brasil cresceu muito socialmente, mas ainda existem pessoas que vivem em situação de extrema pobreza e essas pessoas são de maioria preta, temos uma média de 50 mil homicídios por ano e as vitimas na sua maioria são pretos, ou seja, é um afro genocídio, então o fato do Brasil ser miscigenado, de ter relações inter-raciais, não elimina esses dados que são alarmantes, então diria que o racismo no Brasil é um dos mais perversos do mundo.

M&S: Qual a sua opinião sobre a resistência de que alguns setores da sociedade fazem em relação as políticas de ação afirmativa, em especial a cotas?
Rincon: Se enquadra nesse racismo velado é uma questão histórica, as cotas aqui no Brasil não resolve os problemas na educação, mas a partir do momento que os pretos chegaram aqui na condição de escravos logicamente eles serão desfavorecidos socialmente, então é uma forma de equilibrar a desigualdade e incluir mais pessoas na formação e essas pessoas vão reproduzir seus conhecimentos em função do país. Pelo histórico do Brasil, eu particularmente não tenho essa identidade nacionalista como tem os cubanos, jamaicanos, norte-americanos, mas quem deve ter essa identidade são os governantes. Se tivéssemos uma população bem formada, seria tranquila essa Copa do Mundo, temos uma história linda, samba, capoeira, entre outras manifestações culturais, mas diferente dos chineses não fazemos filmes sobre Capoeira como eles fazem filmes de Kung Fu, nem temos formação de cinema pra reproduzir nossas histórias e cativar o mundo, é tudo muito caro, os impostos são altíssimos, pra se ter equipamentos pra vídeo e pra música não é tão acessível, quem constrói país é o povo, se não preocuparem com o bem estar do povo, o país entra nesse mau estar. Os Estado Unidos é um país racista e conservador também mas a diferença é essa, querem ser os melhores, querem que o povo norte americano seja o melhor com toda sua diversidade, então suas ações contemplam os pretos na música, no esporte, entre outras coisas porque sabem que vai ser bom pro país, diferente do Brasil. Sinto que a elite brasileira tem medo de perder sua hegemonia, eles detém a posse dos meios de comunicação, mas cada vez mais estão ficando velhos e cafonas, e essa juventude preta e periférica no geral, tem total disposição pra pilotar o bonde, promover música, cultura e ditar tendências, nossa ascensão incomoda a elite. Então restringir a educação é uma forma de manter o controle das coisas, por isso que as cotas são tão “perigosas”.

M&S: Como você viu o episódio do "somotodosmacacos"?
Rincon: Péssimo! No contexto do Brasil é péssimo, o Neymar, Ronaldo fenômeno já afirmaram não serem pretos, vi uma entrevista do Marcelo do Real Madrid em que ele disse ser moreno, então pessoas que não tem identidade preta, afirmando ser o chingamento predileto dos racistas não é nada bom, é confuso, já que uma das formas de preparar os pretos contra o racismo é construir neles o orgulho e a identidade, “somos todos macacos” não constrói essa identidade, sem contar os artistas brancos que por puro Hype entraram na onda, mas não se pronunciaram no caso do Amarildo por exemplo. Jogadores como o Boateng, Ballotelli, tem uma postura muito forte contra o racismo, mas eles não tem a expressividade do Pelé, do Neymar, Romário, Ronaldinho Gaúcho, todos eles já foram coroados melhor do mundo e um deles é o "rei", então com tanta munição de grosso calibre em mãos, contar com uma agência de publicidade que provavelmente só trabalham brancos pra fazer uma campanha contra o racismo, foi um tiro no pé.

M&S: Como você vê a tensão e até mesmo o racismo existente entre o negro que ascende social e economicamente e o negro que continua na camada menos favorecida da população?
Rincon: Minha mãe é quem me deu toda essa bagagem de orgulho preto, meu pai também, mas recentemente trocando ideia com ela cheio de militância e tudo mais, ela me brecou e disse: "...faz seu corre...". Entendi perfeitamente o que ela quis me passar, o racismo é um veneno na sociedade, mas as vezes inconscientemente passamos a nos sentir incapazes pelo fato de saber que existem muitas barreiras, então é interessante sermos forte e lutar, ser três, quatro, cinco vezes melhor se for necessário. O ruim é quando o irmão preto supera essas barreiras, passa a andar com pessoas "gabaritadas" e daí acontece a síndrome do diploma, o cara começa a falar mau do samba, da cultura popular, passa a não enxergar o racismo que vive em volta dele e mesmo sendo igual a qualquer outro preto ele se sente diferente por conta das suas condições, mas ele mau sabe que o martelo ainda tem um peso maior pra ele pelo fato de ser preto.

M&S: Quais as maiores dificuldades que você ainda vê no cenário atual para que um jovem talentoso musicalmente posso conseguir ter sucesso em sua carreira?
Rincon: Eu acredito que é possível você criar sua cena, sua tendência, do seu jeito e fazer o corre virar, mas também não existe uma fórmula pra isso, então é tudo incerto, é o amor mesmo que nos mantém insistentes, daí vem detalhes como a cena, o Rap ainda não é tão sólido como o Funk por exemplo, o Samba que acontece desde grandes casas, até bares de esquinas com um público massa e dinheiro entrando no ingresso da casa, consumo de bebidas, porções e etc. O Rap em questão de negócios vive um bom momento mas ainda é pequeno comparando com outros gêneros quando se trata de girar dinheiro. E o dinheiro nos compra a placa de som, o microfone, a MPC, o controlador, a mesa de som. Comprei recentemente uma impressora massa onde imprimo as capas do meu EP, já havia comprado a duplicadora de Cd´s, comprei tudo com dinheiro do Rap, entrando mais grana eu como artista sou capaz de fazer mais coisas, então diria que a grana é uma das barreiras que temos pra gerir uma boa carreira. Com a grana girando bem no Rap acredito que possamos ser autosuficientes, promover festas boas, em casas boas, com som bom, pagar bem os artistas, o público se sentindo aconchegado, pagar gravações, produções, horas no estúdio, e depois os adeptos pagam pelo consumo de tudo isso e nossa arte seguir sólida independente das tendências de rádio, gravadoras e etc.

M&S: O quanto você acredita que a ideia difundida de uma suposta democracia racial (o mito) continua a prejudicar a luta a garantia da conquistas de direitos dos quais a população negra não tem acesso? E como você vê o sistema de classificação do IBGE Negro/Pardo (Negros) / Branco / Índio / Amarelo ?
Rincon: A democracia racial não existe, falamos muitos sobre os pretos, mas a etnia mais marginalizada aqui no Brasil são os índios, muito mais que os pretos e são eles os donos da terra, voltando a aquela ideia que trocamos sobre identidade de nação, quando se trata de indígenas é zero, ninguém diz assim: "...essa terra ninguém mexe é nosso patrimônio histórico indígena...". Se tiverem que dizimar uma etnia indígena pra ter posse de terras e construir qualquer empresa e eles fazem isso sem remorso, então não existe essa democracia racial. Aqui ainda existe esse lance de “beleza negra” que poderia ser simplesmente a beleza em si, esses são detalhes que mostram que culturalmente somos tidos como um subgrupo racial, isso não condiz com democracia racial. Quanto a classificação do IBGE acho confuso, prefiro definir como pretos os que são chamados negros e pardos, por serem escuros, não necessariamente preto como o carvão, mas são afrodescentes, pigmentados, uns mais outros menos, mas somos pretos, os brancos por suas vez não são brancos como o giz, mas por serem claros e de ascendência europeia são brancos, índio, amarelo são termos que não me incomoda, mas esse lance de negro, pardo, mulato, moreno é tudo muito confuso.

M&S: Você lembra onde estava quando soube do assassinato do Mc Daleste? O que você pensa sobre esse crime ainda não ter sido desvendado ?
Rincon: Foi em uma manhã quando acessei minha rede social, costumo ser muito corajoso, mas assistir o video me da muita agonia, ver o muleke fazendo um som tirando onda e saber que em algum momento ele vai levar um tiro é chocante! Toda mobilização seria diferente se tratando de um outro artista de outro gênero musical, essa é uma parte bem triste, vi piadas na internet relacionadas a esse caso que foi tão grave. A ascenção da nossa origem periferiana é algo que incomoda muitos, foi um caso que soou tipo: morreu mais um, mas ele era um artista e estava no ofício de sua arte, foi algo merecia mais atenção e diálogo sobre a violência e o perfil das vitmas da violência.

M&S: Como foi ter participado da música "Não Pare" com MC Fox e McMãe, Cyber e Mc Coé ?
Rincon: Achei a ideia do Cyber massa, produzir e chamar artistas com suas diversidade pra compor uma faixa é bem legal, isso acontece muito fora do Brasil, então achei que seria massa participar, defendo meus ideais dentro da música, mas sou muito a favor de existir vários nichos que de alguma forma leve o nome do Rap, isso vai ajudar a dar mais solidez ao Rap. Respeito o corre dos caras, inclusive muitas pessoas que não me conhecia fora de São Paulo passou a me acompanhar depois dessa música.


M&S: Se você pudesse escolher dois nomes. Um da música brasileira e um da música internacional para fazer uma parceria. Quem seriam esses dois nomes?
Rincon: Afff são muitos e é questão de fase, cada hora estou ouvindo algo, mas vamos lá. Tenho planos de contruir um conceito de música que vou chamar de AfroRep, o Nana Vasconceloz poderia ser um grande parceiro nessa empreitada e como estou passando por uma fase Rock o Gary Clark Jr. renderia uma bela faixa comigo.

M&S: "Profissão Perigo" apresenta uma forte influência de Rock. Quais são suas bandas favoritas de todos os tempos?
Rincon: Assim como o Hip Hop e o MC é um desmembramento da cultura dos Sound System e do Toaster da Jamaica, o Funk, o Grime é um desmembramento do Rap norte-americano, o Rock eu encaro como um desmembramento do Blues, as características do Rock como as guitarras "chorando" são muito presentes no Blues e eu gosto muito disso, usei guitarras assim na intro da "Transporte Público" e tenho acompanhado muito os pretos que fazem Rock porque eles trazem essas características. Mas assumi um amor pelo Rock recentemente por conta da banda Arctic Monkeys, gosto muito! Outra banda que adoro é o Black Keys, Cody Chesnutt, Tame Impala, Black Merda, Gary Clark Junior, The Clash, Rage Against, Nirvana, Bad Brains, Living Colour, conheci recentemente uma banda chamada Death e aqui no Brasil sou fã do Medulla, é minha banda preferida das brasileiras, por enquanto o melhor show que assisti no ano, tive a honra de cantar com eles no Hangar, foi foda!

M&S: Logo em 2010 foi anunciado um álbum a ser lançado logo que você assinou com o selo do Rick Bonadio, você continua fazendo parte do selo? O que aconteceu de verdade sobre o anúncio desse álbum?
Rincon: Eu tenho total responsabilidade na minha escolha, foi bem no momento que o Stúdio N fechou, ali era nosso QG, foi onde gravei "Elegância", logo que o estúdio fechou surgiu o convite, pensamos em conjuto tipo: ele entende de Rap? Não. Já fez algo bom de rap? Não. Vários caras falam mau dele? Sim. Mas aí eu botei na mesa que mesmo sabendo de tudo isso eu iria assinar com ele e ver de perto o que pega, até onde é verdade, até onde é mentira e todo mundo que trabalha comigo respeitou. Mas acabou não dando certo, não tínhamos uma boa relação, ele agiu de uma forma em alguns momentos nada legal, nada ético, daí pensei? "meu trampo tá atrelado com esse cara?" daí desatamos o nó e caminhada seguiu, lamentei muito por não ter conseguido fazer o que planejei, estava tinindo e com muitas músicas querendo trampar, mas ao mesmo tempo não estava maduro pra lançar um album como era o combinado. Aprendi no passar dos tempos a não dar mais datas pras coisas que não tenho certeza, mas posso adiantar que tem muita coisas legal pra acontecer e agora sim me sinto maduro e confiante com meu material. Artisticamente e criativamente vivo meu melhor momento.

M&S: Você pretender lançar mais clipes para músicas para o SP Gueto BR? Se sim. Quais? Você lançará uma série de Ep's antes do seu primeiro álbum, alguma ideia sobre as datas desses próximos lançamentos, incluído o "álbum de estréia"?
Rincon: Como disse na pergunta anterior aprendi a me focar mais no trampo do que nas datas, já me compliquei com essas promessas(risos) mas falando de planos pretendemos sim fazer vídeos do EP, ainda não decidimos as faixas mas queremos fazer um deles com um orçamento mais alto, fazer uma produção do nível do "Elegância" e do "Transporte Público", mas como queremos fornecer muito conteúdo esse ano, vamos fazer outros vídeos com uma ou duas diárias, mais simples, um deles já está semi-pronto só esperando os ajustes, é uma música que não saiu no EP mas de certa forma ela faz uma propagando pro trabalho, tem o EP Inclusão Digital que prometemos a um tempo e ainda não lançamos que tem uma linguagem afro - eletrônica bem legal, cada vez mais tenho mais coisas relacionadas ao rock então existe uma possibilidade de lançar algo nessa linha, entre outras coisas que por enquanto prefiro não anunciar, mas vivo um momento bem legal por conta disso.

M&S: Por que você considerou SP Gueto BR um EP apesar dele apresentar 10 faixas além é claro da qualidade de álbum oficial? Foi mais um termo para substituir o que, sobretudo nos EUA designam de uma Mixtape?
Rincon: Também(risos) burlei o sistema com essa história de EP e faixas bônus, com todo respeito aos meus colegas de profissão a grande maioria das mixtapes lançadas por aqui não são mixtapes, eu tenho um Dj grande parceiro comigo que é o DJ A.s.m.a, está nos nossos planos uma mixtape, mixando as músicas, contando minha histórias, mixando coisas antigas com coisas mais novas, mixando trechos de participações minhas que gravei com outros artistas, algo bem "sujo" cheio de vinhetas, bem dinânico, mas por enquanto sem previsão de lançamento, a meta é trabalhar o SP Gueto BR e continuar levando meu projetos de gravações aqui de casa pra finalizar no estúdio, quem sabe lanço algo novo ainda esse ano.